segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior, morre o homem nasce o mito

            Era noite de sábado (29) e sozinho sobre o sofá ao som de música clássica, Belchior fazia seu “último concerto musical”, enquanto sua companheira Edna dormia no quarto. Por mais de oito anos sumidos da mídia, o nosso maior músico cearense e um dos melhores compositores brasileiros de todos os tempos, da geração “Pessoal do Ceará”, se foi do jeito que ele gostava, no seu cantinho sem se misturar com o mundo que jazia em trevas.

            Era 19 de janeiro de 2005, “eu” apenas um escritor latino americano, estudante e sem dinheiro no bolso, ao lado do meu amigo cartunista Cival Einstein fomos ao Teatro José de Alencar, lá encontraríamos Aldemir Martins, um dos maiores cartunistas cearenses com destaque nacional e internacional.
Belchior (novo)

            O sonho do meu amigo era entregar uma caricatura feita por ele ao artista plástico cearense. Por ironia a exposição de desenhos era de Belchior, cantor cearense, que faria uma seria de homenagens ao artista.
            Mas antes de começar o show de Belchior, eu e Einstein fomos entregar a caricatura a Aldemir Martins e eu dei uma de “assessor de imprensa” e consegui que um repórter registrasse essa entrega que realmente saiu no jornal Diário do Nordeste.
Ao lado de Cid Gomes

            Depois nos sentamos na primeira fila do Teatro e eu vi um verdadeiro show performático de Belchior a poucos metros de mim, foi com grande emoção que eu vi cada música interpretada com brilhantismo, uma voz que ecoava forte e vibrante na acústica do teatro e sua mexida de mãos e seu corpo.
            Nessa época eu não tinha muito entendido aquele show. Claro já sabia quem era esse homem e sua estrema inteligência, mas só com o tempo que fui ver que estava diante do maior compositor cearense e um homem que não buscava nem fama, nem prestigio.
            Sua morte lamentada por todos neste domingo, em Santa Cruz do Sul (RS), nos fazia pensar como estavam a comentar as más línguas, que ele estava louco, senil, mas não, ele estava vivo e estava compondo músicas e traduzindo livros, mas gostava de uma vida mais tranquila, sem fama.
            Quem esteve com ele nos últimos dias, o radialista Dogival Duarte que cedeu sua casa para ele morar por um ano, disse, que o compositor e cantor cearense estava vivaz: “Ele contava muitas histórias, passávamos a tarde inteira ouvindo as histórias dele. Sempre vivaz, muito antenado no mundo. Ele fazia a alegria de todos”
Com amigos entre eles Ednardo

            Como li na Revista Fórum, uma matéria disse que Belchior não estava doente e não há qualquer indício de violência externa.
            Quantas músicas lindas na voz de Elis Regina, Fagner, entre outros.
            Enquanto alguns buscavam fama ele queria ficar na dele. Era ativo e estava na luta contra um sistema opressor, esteve presente nas Jornadas de Junho, segundo ainda a Revista Fórum.
            Suas músicas tocaram gerações, principalmente as mais jovens que curtiam suas melodias. “Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a tua mão, um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim, que coisa adolescente, James Dean...”. “Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava, sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76...
            Um dos últimos grupos que vi atualizando as suas canções foi o Los Hermanos, mas aqui no Ceará, que vivia uma efervescência cultural com novos artistas, como Lorena Nunes, Os Alfazemas, Luxo da Aldeia, e outros que não em lembro agora.
            Eu sei que nas minhas noites de vinho e músicas em barzinhos pela cidade, ou mesmo ao som do violão do meu tio Cláudio Alves, ou em casa, escutava sempre ou pedia sempre uma música do Belchior.
            A música Tudo Outra Vez, mexia muito comigo, “Há tanto tempo, muito tempo, que estou longe de casa, e nessas ilhas, cheias de distância, o meu blusão de couro, se estragou...”
            Eu morador de Fortaleza e nunca sai do Ceará, mas nas músicas de Belchior viajei pelo mundo. Outra música marcante para mim era Comentários a Respeito de John: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol, porque bate lá o meu coração...”

            Belchior foi um romântico autêntico, um homem que soube dosar a vida sem gasta-la de forma errada. Saiu de cena quando todos queriam mais dele.
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