quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Praça do Ferreira, ontem e hoje um elo de lembranças

O caminho do sol


            À tarde de Fortaleza estava igual aos mesmos dias de sempre, em uma cidade que cresce a cada ano. Segundo os dados do IBGE de 2012, cerca de dois milhões e meio de pessoas estão disputando cada espaço, cada milímetro da cidade. Eu por exemplo estava ali dentro do ônibus a caminho da reportagem sobre a Praça do Ferreira e fritava com o sol refletindo sobre mim, sentado numa cadeira do lado do corredor e uma mochila de um passageiro esfregando no meu rosto a cada freada. O horário de 13h no Centro da Cidade é meio conturbado e por isso quando o motorista chega ao ponto final de parada, na Rua General Sampaio, eu saio aliviado daquele transporte.

          Quando olho para frente, já na calçada, vejo barreiras enormes de camelos, o som estridente dos vendedores de CD/DVD, que na ânsia de vender seus produtos aumentam o som. Nas lojas em frente, os locutores estão apresentado às promoções da hora. Entro a direita no Shopping Camelo, já tinha até almoçado, mas aquele cheiro de comida era forte e passo rápido pelo corredor de lojas, até alcançar o calçadão da Liberato Barroso e caminho até chegar ao meu destino.

A praça

            Aqui na Praça do Ferreira (já chamada de Feira Nova, Pedro II, da Municipalidade) o sol foi vaiado em janeiro de 1942, quando há cidade tinha por volta de 180 mil habitantes e os frequentadores ainda andavam de paletó e gravata atrás das moças da sociedade que caminhavam em seu “salto fino”.
Foto: fonte Guia Mais Ceará

             Muito diferente de hoje. Quando apenas alguns aposentados estão ali bem alinhados de calça social, camisa listrada de botão e sapato social. Eu cheguei e fiquei olhando os bancos de madeira com encosto espalhados pela retangular praça. Até tinha lugares vazios, que dava para sentar, se não fosse o sol que incidia seus raios sobre nós. Quando vi uma vaga surgindo numa sombra onde estavam sentadas algumas pessoas, sentei também.
            Um idoso ao meu lado observava o movimento, enquanto dois equatorianos com trajes de índio se preparavam para uma apresentação. As músicas eram instrumentais com um instrumento de sopro, quando um deles tocava, outro dançava uma espécie de dança da chuva.
            Ali contemplando a movimentação de pessoas passando e vendedores de água, de doces, de lanches, gente oferecendo chip de celular, outras engraxando sapatos, alguns pedindo dinheiro. Sem saber por onde começar eu resolvo fazer uma ligação para alguém conhecido e que uma vez ou outra está pela praça, jogando conversa fora com outras pessoas que já contribuíram muito para a família, para criar os filhos.

Apenas um cara

            Geralmente quem senta ali no banco da Praça do Ferreira tem muita história de lutas e sofrimentos para contar. João Bosco Araújo Silveira, 67 anos, é um senhor meio diferente de tudo isso. Não que ele seja hippie ou tenha idéias revolucionárias sobre o mundo. Mas ele é uma pessoa cheia de histórias para contar. Filho de uma pianista e de Farmacêutico, natural de Parnaíba - PI veio ao Ceará ainda criança de oito anos, devido à asma, doença que necessitava de uma cidade mais arborizada como Fortaleza.
Imagens Internet

            Assim ele me acompanhou para o Dudas Burgue´s por volta de 15h, onde fui tomar o café com leite, cuscuz e queijo, presunto e ovos, uma comida típica da tarde, no interior do Ceará. O Bosco ficou ali comigo, mas meio tenso querendo beber algo. E acompanhei-o até o L´escale, um restaurante dentro de um desses shoppings do centro da cidade. Ele já tinha bebido antes e estava um pouco alterado e começou a dar em cima de mulheres que via pelo caminho, como vendedora de lojas, ou estudantes que ele avistava pela frente. Até gosto de paquerar, mas achei que o lugar e a hora não eram apropriados para esse tipo de galanteios.
            Bosco pediu uma garrafa de 300 ml de cerveja e começou a contar um pouco da sua experiência da vida e das suas andanças pela Praça do Ferreira.

Falando do passado

            Sentar no banco e pensar era melhor do que conversa com um bêbado que em seu estado etílico se esquece das suas vivencias na Praça do Ferreira. Era manhã de sábado mais um dia estava eu ali. Praticamente em frente ao Cine São Luiz, construção iniciada em 1939 e concluída em 1959 com capacidade para 1500 pessoas. Ouço a noticia no rádio, que o cinema que está fechado há mais ou menos três anos irá ter reinauguração em breve no mês de dezembro.            Assim ele me acompanhou para o Dudas Burgue´s por volta de 15h, onde fui tomar o café com leite, cuscuz e queijo, presunto e ovos, uma comida típica da tarde, no interior do Ceará. O Bosco ficou ali comigo, mas meio tenso querendo beber algo. E acompanhei-o até o L´escale, um restaurante dentro de um desses shoppings do centro da cidade. Ele já tinha bebido antes e estava um pouco alterado e começou a dar em cima de mulheres que via pelo caminho, como vendedora de lojas, ou estudantes que ele avistava pela frente. Até gosto de paquerar, mas achei que o lugar e a hora não eram apropriados para esse tipo de galanteios.
            Bosco pediu uma garrafa de 300 ml de cerveja e começou a contar um pouco da sua experiência da vida e das suas andanças pela Praça do Ferreira.

Falando do passado

            Sentar no banco e pensar era melhor do que conversa com um bêbado que em seu estado etílico se esquece das suas vivencias na Praça do Ferreira. Era manhã de sábado mais um dia estava eu ali. Praticamente em frente ao Cine São Luiz, construção iniciada em 1939 e concluída em 1959 com capacidade para 1500 pessoas. Ouço a noticia no rádio, que o cinema que está fechado há mais ou menos três anos irá ter reinauguração em breve no mês de dezembro.
Imagens: Blog Fortaleza Nobre

            Como falar da praça e de suas histórias através dos olhares dos seus frequentadores. Esse é um desafio para esse meu segundo dia de visita e observação. Estou sempre nesta praça, não sei precisar ao certo quando foi à primeira vez, que estive frequentando as sempre que vou ao centro da cidade, tenho um local certo para descansar e refletir sobre a vida.
            João Leal (nome fictício), 73 anos, sentou ao meu lado, era um senhor ideal para fazer uma panorâmica do que é a praça. Mas os anos longe de Fortaleza, o distanciaram dessa ligação com coração da capital alencarina. “Eu fiquei 28 anos em Brasília trabalhando na construção civil para a Polícia Federal. Ta com oito anos que vim de volta para Fortaleza. Desde meus 18 anos vinha na praça. Aqui ta tudo acabado”.
            Os olhares do senhor ao lembrar-se das experiências no Centro da Cidade são de quem ver longe algo que não mais existe. Em 1940, o edifício Diogo, na Rua Barão do Rio Branco era inaugurado em um prédio de oito andares, onde abrigava o cinema e depois o auditório da Ceará Rádio Clube, hoje no local funciona, um shopping e uma casa do cidadão.
            O construtor de grandes obras em Brasília, João Leal, ver com tristeza a invasão de shopping para todos os lados. “A Praça José de Alencar, só tem camelo, ninguém pode mais ver a praça, que virou puteiro. Na Praça dos Leões arrancaram os óculos da Raquel de Queiroz. O Ferreira, a estátua em homenagem a Praça do Ferreira está dentro do buraco em um piso abaixo e ninguém o ver mais”.
imagens da internet

            João se lembra do Hotel Savanah, que foi inaugurado em 1963, por Carlos Jereissati e que em 1992 o hotel entrou em falência, devido aos hotéis construídos na Beira Mar. No antigo prédio hospedes famosos, como Pelé. Atualmente o prédio conta com as Casas Bahia. São 10 suítes e 128 apartamentos em 13 andares.
            Quando a gente se lembra que nessa mesma praça, Lula já fez comício, recentemente Marina Silva também e que grandes shows acontecem por aqui como na abertura do Natal de Luz, no último dia (28) com o cantor Fagner. E as crianças que cantam as músicas de natal no Excelsior Hotel de 82 anos de histórias, em frente ao Hotel Savanah. No Excelsior já se hospedaram de acordo com jornais da época, o cineasta Orson Wells e o ex-presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek.

Figuras da Praça

            Aqui tem cada figura que nos deixa perplexo, quando vemos. No sol dessa tarde, de um dia da semana, uma senhora obesa, em uma cadeira de roda e com apenas um olho enxergando, pois o outro já não abre devido a uma provável cegueira, está ali, no calçamento quebrado de quadrados soltos, arrastando sua cadeira de roda e pedindo R$ 0,10 a quem está sentado. Contribui com R$ 0,50 para ver qual a reação dela que recebe a moeda e prossegue seu percurso em busca de juntar a esmola para comer algo, ou mesmo consumir drogas, algo comum em alguns dos frequentadores que se alojaram em torno do nosso cartão postal.
            Mais um dia na minha apuração sobre esse cotidiano aqui na Praça do Ferreira, que costuma surpreender as pessoas que por aqui passam todos os dias a caminho do trabalho, ou mesmo num momento de flanar. Sempre quando algum artista se apresenta é natural que um círculo se forme em torno do espetáculo improvisado. Dessa vez a apresentação é de três mulheres, que ao som de um tambor, vindo de uma caixa eletrônica, tentam transmitir alguma mensagem usando o corpo e sem abrir a boca, se jogam no chão e mudam de local. Elas parecem ser alguma espécie de estudante da intervenção urbana, algo comum na praça, mas com artistas de rua.
            Olha para essas moças me faz lembrar outro personagem da vida real. Há mais ou menos um ano atrás, Índio da Chiquinha (Lucival Cardoso), estava na Praça do Ferreira, fazendo suas apresentações, vestido de índio, com seu corpo magro, interpretava com humor, os ritmos de outras épocas. Tinha a dança da cintura quebrada, cavalo manco, entre outras.
Fotos: Internet

 O homem vivia viajando pelo Brasil e ainda me lembro de ele ter falado para as pessoas que costumavam ver seu trabalho, que iria embora de Fortaleza para outra cidade, pois aqui viria a época da chuva. Até hoje o artista não voltou e nem a chuva veio para ser aplaudida pelo povo cearense.
            Tenho que trocar de lugar na praça, para tentar conversar com alguém, mas não aparece bem quem eu imaginava. Eu sempre conhecia a fama de que alguns daqueles idosos sentados naqueles bancos estavam explorando o outro lado do sexo, coisa que durante a vida não puderam fazer por ter que interpretar o papel de pai e marido, que a sociedade o pedia. Eu fico sem saber o que falar e resolvo ir almoçar, na volta sento perto do engraxate. Ele é conhecido na praça e é o único que as pessoas confiam mais. Ele já tem cabelos brancos e atende em cima de uma caixa, enquanto embaixo dele está dormindo o seu felino de estimação, em meio aos barulhos da praça.
            Mas não consigo evitar e mais uma vez o senhor de 70 anos, senta ao meu lado e pela sua voz, percebo que ele é mesmo gay. Resolvo tentar saber um pouco da sua história e me surpreendo ao saber que ele é de Jaguaruana e está em Fortaleza se tratando de uma cirurgia de catarata. “Sou fazendeiro, tiro leite de gado e fui casado 40 anos, tenho três filhos. Há três anos sou viúvo, mas fui feliz no casamento, minha mulher era uma esposa formidável, que morreu vitima de um derrame”.
            A praça é assim, do nada, ela se transforma e abre novas expectativas para os transeuntes. Assim começa um show: Valbeane do Acordeon, com sua sanfona, seu irmão no triangulo, cantando e sua mãe na zabumba, além da pequena irmã que canta algumas músicas, essa é a família Forro Pé de Serra do Rio Grande do Norte, fazendo sucesso na Praça do Ferreira. Dessa vez não se faz um circulo, mas as pessoas se reúnem em grupos menores e apreciam o forrozinho que toca. E os CD´s são vendidos a 10 reais, ou você vai à caixa de sapatos e bota sua moeda e contribui para mais um grupo de sucesso e que antes do sucesso briga pela sobrevivência.
            Além do patrimônio material, como a Farmácia Oswaldo Cruz fundada em 1934, e sendo a pioneira em manipulação do Ceará, tombada em janeiro de 2012, pelo Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), temos na Praça do Ferreira, os símbolos humanos, como é o caso do poeta Mario Gomes, homem da rua, levado a loucura a viver sem rumo, mas que conhece bem seu papel histórico.
Mario Gomes foto:Raymundo Netto

        Sua poesia Ação Gigantesca vencedora do Festival de Poesia Cearense, em 1981, marca sua personalidade, “... Beijei a boca da noite. E Engoli milhões de estrelas. Fiquei Iluminado. Bebi toda a água do oceano. Devorei as florestas...” Várias vezes eu o encontrei com sua jaqueta marrom, sua calça social surrada e seu cigarro na mão. Mário Gomes parecia mais um entre tantos homens em busca de encontrar algum lugar para preencher a tristeza da solidão. Ali na praça ele parecia mais humano, mas gente como os demais.
            
            Sonhos perdidos
           
            Antes na Praça do Ferreira se comia pastel e tomavas caldo de cana, no Leão do Sul. Contasse às histórias que os alunos gazeavam aula para se encontrar lá. Fundado em 1926, foi mesmo ponto de encontro de gerações, antes como mercearia, onde os senhores de linho branco e chapéu faziam suas compras por lá, depois com o tempo, virou lanchonete e hoje mesmo com os shoppings e seus lanches industrializados não são capazes de esvaziar o Leão do Sul, que continua a produzir um delicioso lanche.
Foto: Arquivo

         Na Praça do Ferreira também surgiu grandes inspirações jornalísticas e literárias. O mais emblemático clube literário chamado de “Padaria Espiritual” liderado pelo escritor Antônio Sales, teve por lá no Café Java, em 1892, ao ar livre seu primeiro encontro, onde tinha como objetivo filosófico prover o pão do corpo e o pão da alma. Aliás, “Pão” era o nome do jornal que publicava as obras literárias de seus membros.
            Por isso quando sento nessa praça sei que estou diante da nossa história e aqui posso imaginar que os sonhos perdidos podem continuar a nos guiar pelos maiores sonhos humanos de amor e liberdade.

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