sábado, 2 de novembro de 2013

Dia de não ir ao cemitério

Que dia comum, como qualquer outro, onde as pessoas ficam ali no cemitério homenageando seus ente queridos. Todos nós aliás temos os nossos amados que partiram. É tão difícil pensar essas pessoas ali naquele lugar, frio, debaixo de um monte de areia e só os ossos, já que o corpo já fora devorado, pelos bichos que gostam de se alimentar de um cadáver.
A primeira vez que oficialmente entrei em um lugar como esses, eu tinha pouco mais de 07 anos e perdi um coleguinha de escola, por causa de uma  meningite que ele teria pego no próprio local de estudo. Foi ali no São João Batista, cemitério localizado entre a rua: Padre Mororó e Castro e Silva, próximo ao Centro da cidade de Fortaleza.
Ali ia muito, sem no entanto entrar, pois ficava a oficina do meu avô Assis Alves. E via da entrada da oficina o grande cemitério. Meu avô que já fora Presidente da Federação Cearense de Sueca e que mexia com esse trabalho de consertar carros, na sua época, sendo um dos locais de referência da cidade.
As estórias que ouvia, era que meu avô tinha a mão aberta para todos e também tinha um restaurante onde as pessoas comiam e penduravam a conta, principalmente os amigos dele, no fim a falência do estabelecimento de comidas. A Oficina, meu vovô vendera e como contam os parentes ele teria perdido todo o dinheiro. Até fumar um baseado, meu avô fumava e eu não sabia.

Mas voltando para a questão do dia de hoje, que jaz no fim, as pessoas vão olhar no cemitério aqueles que não estão lá, pois para mim, quando o corpo fica sem espirito (a vida), já ali não tem mais nada que lembre os nossos antepassados.
Um dia soube que minha vozinha , dona Raimundinha estava doente e que tinha de ir ao hospital, três meses depois, a morte a chamou para um abraço fatal e ali perdi alguém tão próximo, que a casa ficou vazia, onde já havia morado, tios, primos e meu pai e mais eu, já perderá toda sua formosura e a gente ficou sozinhos, eu, meu pai e meu avô, homens sem saber como se cuidar, mas vivendo as descobertas sem a proteção da mulher da casa. 

A morte com o tempo, foi pegando parentes, amigos que iam e pessoas distantes que admirávamos como artistas de sucesso. A morte é aquela música do Raul Seixas que diz: 

Canto Para A Minha Morte

Raul Seixas

Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Hoje estava pensando: "Será que as pessoas estarão se lembrando de mim nesse dias, algumas anos depois da minha morte?", ai veio a certeza que não é o lugar que faz com que as pessoas pensei nos seus ente queridos, mas sim é um estado de coisas, que faz sorrirmos ou chorarmos quando olhamos para as pessoas que já estiveram presentes ao nosso lado.
Que pensamentos tolos, ou não, mas o que penso é que nos dias de hoje todas as datas comemorativas, ou a maioria delas, está apenas representando um papel sem quase significado algum.
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