terça-feira, 18 de junho de 2013

Através da sua arte os profissionais da rua encantam e sobrevivem no Calçadão da Beira Mar em Fortaleza



Donos de um dom único os artistas de rua mostram seu trabalho para turistas e por quem passeia na orla marítima da cidade

Fazer arte é algo que muitas vezes pode ser simples e em outras vezes complexa. Desde a inspiração, até o momento de negociar os produtos, têm-se muitas etapas a serem vencidas. Não basta nascer com um dom em especial, tem que saber lapidá-lo, e fazer com que as pessoas se interessem por ele.
            No Calçadão da Beira Mar em Fortaleza é possível encontrar de tudo, pessoas praticando esportes, feirinha de produtos regionais, vendedores de pacotes turísticos, barracas com comidas e show de humor. Em especial tem um grupo que muitas vezes parece esquecido pelos fortalezenses, porém tem seu trabalho com grande aceitação pelos turistas que visitam nossa capital.
            Estamos falando dos artistas de rua. Espalhados por boa parte da Beira-Mar, mas concentrados principalmente entre a feirinha e o Jardim Japonês, os trabalhadores da arte, fazem de tudo para que seu trabalho seja reconhecido.

            Um desses artistas é Edilson Lima Rocha, 43 anos e que há 13 anos expõe seu trabalho de pintura de quadros feitos com a composição de acrílico sobre tela, onde ele retrata o expressionismo urbano, seja com a temática favela, pescador e outras que mapeiam o Brasil. Edilson já pintou um painel em Cuba e está com uma mostra na FA7. Tem telas para todos os bolsos, de 300, 400, 3.000, até 4.000 reais. Edilson define a sua entrega à arte da seguinte forma: ”A minha psicóloga falou que se não fosse pintor, seria uma pessoa perigosa”.  

           No ramo de pintura na Beira Mar existem cerca de 20 pintores dividindo os olhares dos diversos turistas que passam ali todas as noites. “No mercado da arte não existe concorrência, cada pessoa possui um estilo próprio. No meu caso quem compra mais minhas pinturas são os turistas europeus, devido eles já estar num estágio mais avançado que o brasileiro e, portanto com uma sensibilidade maior para arte” conclui Edilson.
            Para algumas pessoas ganhar o pão todos os dias é algo penoso. Ter que acordar cedo, aguentar reclamações do seu chefe, ganhar um minguado salário que muitas vezes nem completa as contas do mês. Mas diante de tantas dificuldades é melhor mudar mesmo de profissão, foi dessa maneira que Marcelino Brabo, 52 anos largou o trabalho de 20 anos na Coelce para arrumar um algo a mais que completasse o seu orçamento, começou como professor de teatro, logo depois veio mexer com áudio visual e também virou professor dessa área, porém queria ganhar mais.
            Foi assim que resolveu trabalhar com artesanato. PVC e papel. “Com o PVC faço abajur, cantoneira, luminária, porta-retratos, porta chaves, lustres e quadro de paredes, tenho um atelier nas Goiabeiras e venho vender meus produtos aqui na Beira Mar. Meus produtos já foram vendidos para Argentina e Itália e quem mais os compra são os casais”. Complementa Marcelino.

            A verdade é que na Beira Mar tem arte para todos os estilos, encontramos imagens de santas feitas de pó de pedra, carrinhos, bicicletas e motos, feitos de arame. Tem até gravação de frases em arroz, um minúsculo arroz que é colocado dentro de um pingente e pode ser dado para alguém que você gosta. Katiane Mendes, estudante de jornalismo da Fanor, e que acompanhou a reportagem, comprou por R$ 15,00 um colar com seu nome e de seu namorado. “aproveitei a oportunidade de estar na Beira mar no dia dos namorados e vou presentear alguém que eu gosto” relembrou Katiane. O artesão responsável por esta peculiar forma de arte é Severino Xavier, 27 anos, afirma que aprendeu seu ofício na Paraíba e define sua arte da seguinte forma: “É uma arte milenar. O arroz simboliza a prosperidade, por isto se joga arroz em casamentos”.

          Não é de impressionar tanto essa multiplicidade de gente em busca de atenção, já que ali próximo ao Náutico Atlético Cearense, é o local que concentra mais pessoas. Nesse espaço bem em frente ao espigão que está sendo construído pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, sentando no seu banquinho de violão na mão, com uma boina na cabeça e ao seu lado uma mesa com CD´s expostos, estava Gerardo Lúcio, 42 anos, mais um personagem dessa história.
            Desde 1989 envolvido com música gospel ele já lançou 34 álbuns, todos feitos no estúdio em sua casa. Cada CD custa R$ 10, e ali mesmo no calçadão, Gerardo canta ao vivo as músicas. Na pressa, quase ninguém se permite parar e ver sua apresentação, porém alguns compram o seu CD e depois seguem seu caminho. São pessoas de vários Estados como Natal, Sergipe e principalmente Brasília, público que, segundo o cantor Gospel é o para quem vende mais seus CD’s.

                     “Eu trabalhava com a música secular, MPB, Pop... aí tive o chamado de Deus. Comecei a tocar nas Igrejas, aí pensei, porque não expandir? Nesse trabalho não levo só meu nome, mas o evangelho. Já lancei 35 CD´s, sou o artista cearense que mais tem CD´s gravados” falou Gerardo.
           Outro personagem da Beira Mar é Antônio Marcos, 35anos, artesão. Ele trabalha há 12 anos com artesanato, e sustenta os filhos com seu “hobby”, vende mais para os turistas de que para os fortalezenses. Antônio afirma que produz suas peças de arame desde os 22 anos, entre elas belas motocicletas estilo Harley-Davidson. Antônio trabalha de 7h até 22h, uma rotina pesada, mas para quem ama o que faz, não é trabalho, é prazer.
            Francisco Mota Araújo, 29 anos, tem uma das profissões mais curiosas da Beira Mar, ele é estátua viva. Ele utiliza purpurina a óleo de panela no corpo para obter sua cor prateada, e está nesta ocupação há um ano e oito meses. O rapaz, franzino, nos pareceu um pouco confuso em suas respostas, primeiramente nos disse que vivia com seu irmão, depois mudou sua história, afirmando que vivia com o pai. Também confundiu o tempo que trabalhava em sua ocupação de estátua viva.
          Em nossa segunda visita à Beira Mar, enquanto caminhávamos pela orla, cruzamos o caminho da Fortaleza Apavorada, movimento organizado pela classe média fortalezense, com intenção de levantar o debate sobre a violência que vem aumentando na cidade a cada dia e tem feito novas vítimas a todo o momento.
           O movimento, segundo os organizadores, reuniu cerca de 10 mil participantes, para a polícia militar, eram cerca de 3 mil e foi pacífico, não houve qualquer incidente entre polícia e participantes. A concentração começou a partir das 15h, em frente ao Palácio da Abolição. Palavras de ordem como “Fora corrupção! Impunidade não! Queremos solução” foram ditas pelos manifestantes. Faixas e cartazes com frases em português e inglês se destacavam: “Na copa é tudo lindo e o povo se iludindo” e “Fortaleza Apavorada, segurança já”. Pelas nossas contas, não passaram de algumas dezenas de pessoas, talvez por o movimento já estar se dividindo quando chegou à avenida Beira Mar. Ao chegarem à frente do Jardim Japonês, o movimento parou sua caminhada e houve um discurso de um dos organizadores, Clóvis Nunes, que integra o Conselho Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça e é coordenador nacional do Movimento Paz pela Paz. Depois o trio elétrico que acompanhava a manifestação tocou o Hino Nacional e todos ergueram suas mãos pintadas de vermelho, que era o símbolo do movimento, e cantaram o hino. Em seguida, a manifestação chegou ao fim e todos deixaram a avenida.
          Pouco depois da passagem da manifestação, encontramos outro interessante personagem, seu nome era F. M., 50 anos, artesão paulista, trabalha em sua profissão há 7 meses, é formado pela Universidade Mackenzie, de São Paulo, em Artes Plásticas.

          Fabrica requintadas bolsas à mão e as vende de R$ 50 a R$ 120 para turistas, principalmente, mas também negocia com lojas da Avenida Monsenhor Tabosa. F. M. nos contou também que é ex- usuário de drogas, por isto, pediu para não ser identificado na reportagem, passou cerca de um ano em tratamento em clínica particular do Euzébio, chamada de Vila Serena, seguidora dos preceitos dos Narcóticos Anônimos e seus 12 Passos. F.M. afirma ainda que conviveu com o vício em drogas pesada por 12 anos, hoje é um adicto. 

*Texto meu coautoria Roberto Eduardo
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