sexta-feira, 15 de março de 2013

O canto Marcado


É noite de quinta-feira (07), não se vê quase ninguém na praça da Gentilândia. Apenas alguns vendedores ambulantes, vendendo seus produtos, seja bebida, comida ou mesmo camisas e bandeiras do Ceará Sporting Club.
Depois de ter sido eliminado domingo numa Arena Castelão lotada (52 mil pessoas), o torcedor do Ceará, tinha resolvido não aparecer.
Mas para quem vive de venda, como Francisco Valdemir Viana Miguel de 52 anos, não tem dia bom. Desde que chegou a Fortaleza com um sonho de uma vida melhor há 30 anos, com mulher e filhos, vindos do município de Massapê, ganha a vida como ambulante. Durante o dia vende no centro da cidade de Fortaleza e de noite na entrada dos estádios de futebol quando tem jogo.
Francisco Valdemir

Ele vende rádio, pilhas e fone de ouvido. O preço dos seus produtos é em conta, porém a durabilidade é que é pequena. Todo jogo o torcedor compra um fone de ouvido por apenas dois reais e muitas vezes com um dia já não presta mais, então o mesmo torcedor vai lá e compra de novo. Na outra partida.
Mas a sua clientela é fiel, principalmente homens acima de 40 anos, que gostam de ouvir a partida pelas emissoras de rádio local. São clientes que consomem seus produtos há mais de uma década.
Enquanto a cidade pulsa do lado de fora, com o engarrafamento tradicional de cidade grande e mal planejada. Dentro do Estádio reina um silêncio, os refletores ainda estão apagados, alguns ambulantes sentados nas cadeiras azuis ao lado de seu material de venda.
Aos poucos as luzes se abrem, chegam alguns torcedores e também o narrador Jota Rômulo que senta na cadeira no mesmo lugar onde narra os jogos do Ceará há mais de três anos, no meio dos torcedores. Lugar que era conhecido como “cimento”, antes da reforma feita pela ex-prefeita Luizianne Lins.
Jota Rômulo (narrador esportivo)

Todas as antigas emissoras em que trabalhou, não permitiam Jotinha estar no meio do povo, mas quando surgiu o projeto Canal do Vovô na A3 FM (91,3), ele não teve dúvidas de trocar o conforto das cabines de rádio com ar-condicionado, pelo o agito das arquibancadas. Hoje na 92,9 se sente feliz.

Lembra dos tempos de criança, quando aos 06 anos no distrito de Maracujá no bairro do Mucuripe, imitava os narradores de futebol, com uma latinha servindo como microfone, nos jogos do campo do Terra e Mar.
Filho de pai e mãe alvinegros, Jota Rômulo, passou parte da vida como vendedor, mas em 1989, largou tudo e foi ser narrador de futebol.
No começo narrava todos os jogos, hoje ele não fica em cima do muro é “torcedor alvinegro desde que foi gerado”, e só narra jogos do seu clube de coração, uma homenagem a tradição herdada dos pais.
Perto dali, dois homens perguntam sobre a senhora que vende a pamonha mais gostosa que eles já comeram, segundo eles mesmos disseram. A pamonha de dois reais e o café ou chá por apenas um real, fazem sucesso há 40 anos nos estádios de futebol de Fortaleza.
Francisca Aires hoje com 59 anos, tem dificuldade de subir os degraus da escadaria do PV, mas não se arrepende de estar ali vendendo seus produtos. Pamonha, café e chá.
Ela é mais uma cearense que deixou o interior de Itarema em busca de ganhar a vida na cidade grande.
Seus clientes a chamam de tia é uma ligação de amor. Quando algum torcedor morre Dona Francisca chora como se fosse um parente seu. Por isso não consegue ficar em casa em dia de jogo, mesmo que o lucro não venha.
- Eu tenho apego por isso aqui, é minha vida. Francisca fala a um torcedor com a voz cansada.
Não posso deixar de se admirar com a Cearamor criada em 1982, que faz ali o Estádio Presidente Vargas vibrar com o cântico modificado da música do Mamonas Assassinas:
Ceará estaremos contigo. Tu és minha Paixão Não importa o que digam. Sempre levarei comigo, minha camisa alvinegra, e a cachaça na mão. O estádio me espera, Vai começar a Festa. Eu sou Ceará...”
Uma torcida organizada anima a todos quando está na função para qual foi criada. Antes realmente eu gostava de ficar ali, no meio da bagunça, sentindo aquela emoção de adolescente, hoje já tenho 33 anos, me dei conta que a minha fase passou.
No momento sou aquele torcedor que está com o radinho ligado, ouvindo o que rola antes do jogo iniciar. Fico trocando o ponteiro das rádios, não paro em uma emissora em especifico, mas aquela que está dando a informação mais relevante me atrai.
Tinha um radinho de pilha que movimentava com os dedos o botão, que rodava e uma agulha indicava a rádio que estava sintonizada, mas resolvi comprar um rádio digital, mas moderno, que sintoniza a rádio quase automaticamente.
O velho rádio, eu não aposentei, mas ele ta lá no móvel, largado, guardando velhas lembranças de narrações fantásticas.
Num estádio têm hora que parece meio sufocante as arquibancadas. As pessoas estão todas conversando entre si, parece uma matraca giratória. A conversa gira sempre sobre quem vai ser o jogador contratado, quem vai deixar o time, quem joga melhor, se o rival (Fortaleza) vai bem ou mal:
- Que vergonha, perder dentro de casa para o time do ASA, o time deixou de ganhar um milhão e meio de reais.
- Acho que a diretoria deveria mandar esse lateral Erick e o Fransérgio embora.
- Com esse time não sobe para a Série A.
A torcida do Ceará estava mal acostumada, depois de ter passado dois anos na elite do futebol brasileiro, não se contenta com qualquer time e fica criticando os jogadores por qualquer erro besta. Hoje parece que o time está sem vontade.
E por um momento, eu desvio o olhar do campo e vejo como tem mulher bonita nas arquibancadas, são para todos os gostos: morena, branca, loira, cabelo com escovinha, etc. Elas estão tranquilas, pois um estádio de futebol é o único lugar do mundo, onde a mulher pode ir sossegada que não vai ser assediada por ninguém, pois os olhares estão todos fixos no que acontece dentro das quatro linhas.
Naquele espaço conhecido como cimento os mesmo torcedores de sempre vão para desabafar, gritar, reclamar. Uma espécie de liberação de estresse da vida cotidiana. Se o time perde, como ocorreu nessa noite por 2 x 1 para o Guarany de Sobral a tristeza é grande.
Mas uma volta para a realidade: a vida de dona de casa para Francisca Aires, a missão de pai e marido de Jota Rômulo e de Francisco Valdemir. Eu volto a minha dura realidade de estudante e trabalhador. As luzes se apagaram.

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